
Stephen Covey
Em entrevista exclusiva, o especialista em desenvolvimento pessoal Stephen Covey afirma que, além de cultivar os sete hábitos que levam à eficácia, o executivo deve achar a própria voz e as vozes dos outros Ele estará na Expomanagent 2008.
Stephen Covey gosta de comparar a liderança com um fósforo. O fogo de um fósforo pode acender uma vela e iluminar um quarto que está escuro, mas é necessário riscá-lo para que pegue fogo. O mesmo acontece com um líder, que precisa encontrar o próprio fogo –nesse caso, a própria voz– e, então, ser capaz de riscar outros fósforos, ou seja, inspirar os colaboradores a achar a voz deles.
Enquanto os sete famosos hábitos pregados por Covey levam à eficácia, este, o oitavo, conduz à grandeza da liderança.
Na entrevista a seguir, o grande especialista em desenvolvimento pessoal explica que os mecanismos de motivação externa não funcionam mais. Ele também diz que os executivos devem trocar o paradigma da era industrial, quando o foco estava nos pontos fracos, pelo paradigma da era do conhecimento, que manda concentrar-se nos pontos fortes e compensar os pontos fracos de cada integrante do grupo com os pontos fortes dos demais.
Para Covey, é essa complementaridade que torna mais produtivo cada indivíduo da organização.
O sr. publicou um livro dizendo que há um oitavo hábito muito importante para quem quer ter sucesso, além dos sete que o celebrizaram. Qual é o novo hábito?
Encontrar sua voz e inspirar os outros a encontrar a deles, para que eles complementem você, tornando-o mais produtivo. Mas isso deve ser feito numa seqüência: só é possível inspirar os outros uma vez que se tenha conseguido identificar a própria voz.
E é difícil encontrar a própria voz?
Encontrar nossa voz exige profundo compromisso com o desenvolvimento pessoal. O fato é que, em geral, desconhecemos nossos pontos fortes. Isso ocorre por conta da era industrial, quando se colocava o foco nos pontos fracos. Na era do conhecimento, o segredo é se concentrar nos pontos fortes e compensar os pontos fracos de cada integrante do grupo com os pontos fortes dos demais.
Como se faz, então, para encontrar a própria voz e consagrar esse novo estilo de liderança “inspirador”?
Primeiro, devemos trabalhar naquilo sobre o qual temos controle, vivendo com integridade e honestidade, procurando crescimento e desenvolvimento constante. Em seguida, temos de afirmar o valor e o potencial das outras pessoas, sem ficar fazendo comparações, preocupando-nos sinceramente com seu desenvolvimento, sem discursos e com ações reais.
E o que acontece quando alguém que encontra sua própria voz não consegue inspirar os outros?
Essa é a segunda instância do oitavo hábito e se dá, naturalmente, em certas condições.
Quando se aproxima um fósforo já aceso de outro, a chama do primeiro alcança o segundo, e ambos brilham mais intensamente. O mesmo ocorre quando alguém afirma o valor de uma pessoa e torna evidente que acredita nela, sendo afetuoso e compreensivo.
Com essa chama “unida” se pode acender uma vela mais facilmente. Essa vela representa o emaranhado de estruturas, sistemas e processos dentro da organização para que as “vozes” de todos sejam usadas, reforçadas e afirmadas de forma contínua e recíproca e a equipe complementar se forme, como afirmação sistêmica do valor e potencial de cada um.
Essa é uma definição metafórica de liderança. Qual é a definição técnica?
A definição de liderança que associei ao oitavo hábito é simples e, por sua vez, extremamente poderosa: a liderança consiste em comunicar às pessoas seu valor e potencial de modo tão claro que elas possam reconhecê-los como próprios. Essa comunicação não deve ser feita apenas por um indivíduo, mas pela cultura, pela organização em si –sua estrutura, os sistemas, o esquema de remuneração, o processo de seleção, os planos de capacitação e desenvolvimento.
O que acontece, então? Pela coerência da mensagem comunicada, crescem a credibilidade da empresa e, ao mesmo tempo, a convicção de cada pessoa. E qual o resultado? Deixam de ser necessárias coisas como supervisão, direção externa, burocracia e hierarquias, tão custosas que, em uma economia globalizada, desviam a organização da competição. E não fazem mais falta os velhos mecanismos de motivação externa.
Isso significa que as teorias tradicionais sobre motivação estão todas erradas?
Elas se tornaram obsoletas para quem compete globalmente. Na competição local, a motivação “externa” ainda pode ser útil, mas também aí, pouco a pouco, a necessidade pessoal de propósito e significado crescerá, exigindo um tipo de motivação interna.
Obviamente, o sistema de valores vigente resistirá à mudança porque não quer renunciar ao poder e à capacidade de controle que encerram as motivações psicológicas externas.
A capacidade de execução é outro tema de absoluta atualidade nas organizações. O que o sr. pensa a respeito?
Como já disse Larry Bossidy [líder da General Electric com Jack Welch], a liderança sem a disciplina da execução é incompleta e ineficaz. A incapacidade de executar em geral deriva de falhas nos seis fatores dos quais depende. Em primeiro lugar, a falta de clareza. As pessoas não conhecem as prioridades de suas equipes ou da empresa. Quando peço às pessoas da platéia de minhas palestras que fechem os olhos e apontem o norte, elas apontam nas direções mais diversas. Nas empresas acontece o mesmo. Se alguém pergunta qual é a prioridade máxima, seguramente não encontrará muitas respostas coincidentes. Porém, na economia do conhecimento, essa lacuna precisa começar a se fechar, pois todos devem estar mais comprometidos com o processo de decidir o que é o mais importante. Eles já não obedecem a “ordens” de um superior.
Aí está a segunda lacuna possível: a falta de compromisso. Os funcionários não “incorporam” os objetivos. Embora conheçam as prioridades da empresa, isso não lhes importa, porque só estão conectados com ela pela retribuição econômica.
A falta de “transmissão” é o terceiro fator. As pessoas não sabem como podem contribuir individualmente para a consecução dos objetivos de sua equipe ou da organização.
A quarta falha está nas estruturas e sistemas disfuncionais, que, embora dêem segurança e tornem previsíveis as condições de trabalho, não permitem aos indivíduos que
desempenhem bem sua tarefa.
A falta de sinergia é o quinto fator nessa equação: não há equipes complementares, falta interdependência, há lutas territoriais, protecionismo, conflitos interpessoais, política interna, agendas secretas.
Finalmente, a última lacuna é gerada pela falta de responsabilidade, quando ninguém se reconhece reciprocamente responsável. Na verdade, todos deveriam sentir-se responsáveis perante todos, pois, com o fim da era industrial, desapareceram o chicote e a cenoura como motivadores e a técnica “sanduíche” de avaliação de desempenho (algo amável para abrir a conversa, as áreas para melhorar no meio e algo amável para fechar) e, no lugar deles, impôsse a freqüente avaliação compartilhada dos resultados em função desses objetivos prioritários, que todo mundo conhece e compreende.
Como corrigir as falhas na execução?
Segundo nossas pesquisas, quatro “disciplinas” representam os 20% de ações que produzem os 80% das soluções.
Em primeiro lugar, é preciso se concentrar no que for decididamente importante, porque as pessoas tendem a colocar o foco em apenas um assunto por vez com o mesmo nível de excelência.
m seguida, deve-se criar um gráfico de controle “motivador”: as pessoas reagem de maneira diferente se o desempenho delas é registrado.
Em terceiro lugar, é extremamente importante traduzir os grandes objetivos em ações específicas. Os objetivos nunca serão alcançados se a equipe não souber o que fazer para iniciá-los. É claro que sem esquecer que são trabalhadores do conhecimento criativos: são eles os que devem inovar e traduzir a inovação em um plano de ação.
Por último, uma vez mais, é preciso confirmar a responsabilidade de cada um. Nas equipes mais eficazes, são freqüentes as reuniões para corroborar o comprometido com o realizado. O propósito não é controlar ou redistribuir tarefas, e sim levar a consecução dos objetivos um passo à frente.
Essa nova forma de liderança baseada em propósitos e princípios é realmente sustentável?
Para tanto, deve-se fazer o possível para que quem suceder o líder seja melhor que seu antecessor e não sinta que o êxito dos outros é uma ameaça.
A entrevista é de Graciela González Biondo, colaboradora de HSM Management.
Edição 50
Fonte: HSM Inspiring Ideas